A fé que eu via de longe.

Quando jovem lembro de uma vez encontrar uma amiga na rua, ela estava visivelmente abalada. Vivia com os tios, estava aqui na cidade grande para concluir os estudos, a adaptação cultural e familiar estava sendo desgastante emocionalmente. Nos conhecemos em uma entrevista de emprego, na ocasião apanhamos o mesmo ônibus para ir embora e a partir dali não deixamos mais de nos falar por telefone.

Sem dizer muita coisa, ao me ver ela me abraçou, não chorava, mas senti sua respiração mais forte, como se prendesse algo dentro de si que estava lhe consumindo ao ponto de quase explodir. “Vamos na missa comigo? ” disse ela sem ver nem pra quê. Eu destituído de qualquer desejo religioso pensei em negar, mas senti que um “não” terminaria de destruí-la naquele dia. Então com certa relutância e esperando que não fosse para logo perguntei “Quando?”, a resposta me deixou em maus lençóis “Agora” disse ela. E fomos.

Cresci num lar onde não havia religião oficial para a família, embora minha irmã fosse católica praticante e fervorosa, e vez por outra me levasse à igreja quando eu ainda não podia dizer não.

Naquela noite quando chegamos na missa o templo estava lotado, quase não havia como entrar. Conseguimos um pequeno espaço para ficarmos em pé na entrada de uma das portas que ficava na parte lateral da nave.

Os cânticos em tom de melancolia eram entoados por todos. Algumas pessoas com ar contrito, outras com uma disfarçada reverência. Crianças impacientes em bancos duros de madeira quase que torturadas por não poderem se mexer. Velhinhas de xales brancos e terços nas mãos, estas sempre me faziam imaginar como devem ter sido quando jovens, se tiveram filhos, se casaram, e como conseguiram abrir mão da vaidade feminina e se uniformizarem assim para o resto da vida. Havia também um grupo de jovens bem alinhados sem ser pomposos, com olhares furtivos cantando enquanto um deles tocava um violão que aos meus ouvidos me pareceu um tanto quanto desafinado. Esse era o quadro.

Olhei para minha amiga, seus olhos fixaram-se no altar, percebi que se dirigiam à uma imagem do Cristo crucificado. Tal cena sempre me causou desconforto. Ver um homem coberto de chagas pendendo de um madeiro e com um olhar de angustia, abandono e sofrimento não era para mim em nada inspirador no que se refere à uma referência de conforto. Mas acho que para a minha amiga era. De certa forma, aquele homem na cruz lhe dizia algo, acho que se irmanava com sua dor, ou talvez a fizesse lembrar que sua dor não era a maior, nem muito menos a única.

Nada ali me impressionava, com uma mente poética, mas muito racionalista, eu via a beleza da celebração, mas não encontrava nela nenhuma motivação sobrenatural para mim. Até que - sem que eu esperasse, e sem que isso fosse ordenado pelo padre que do altar davas as “ordens” da celebração – olho para minha amiga e ela agora é a única naquele lugar à ficar de joelhos. Suas mãos se unem, ela inclina a cabeça, olho para seus lábios, eles estão estáticos, e de repente uma furtiva lágrima rola por seu rosto agora mais rosado do que de costume. E nesse instante, sinto algo ali, uma sensação diferente que talvez a missa quisesse me levar a sentir, mas sem sucesso. Sinto naquele momento uma presença. Parecia que minha amiga estava naquele instante em um lugar que eu almejava estar, onde a fé encontra o desconhecido e descansa.

Não foi demorado aquele momento, aliás, para falar a verdade, eu não sei ao certo quanto durou. Sei que quando ela ficou de pé estava como quem havia se desvencilhado de toda a tensão e ansiedade de minutos atrás. Me olhou e sorriu com leveza. A missa transcorreu de modo que continuei indiferente, mas com uma vontade de que tudo terminasse logo para que eu pudesse pergunta-lhe sobre como era vivenciar aquilo que eu havia visto nela naquele dia.

Nunca cheguei a obter uma resposta sobre isso, porque nunca tive coragem de perguntar. Não sei se por vergonha, ou receio de ser inconveniente ao entrar em um campo tão pessoal. Fui deixa-la em casa, no caminho, nada do que antes a atormentava parecia mais estar ali. Na despedida ela me perguntou “Gostou da missa? ” e eu secamente respondi “Para mim são todas iguais, mas confesso que essa me acrescentou algo”. “Que bom” disse ela com um sorriso cheio de uma paz que eu queria muito saber de onde vinha.    


Anos mais tarde eu iria descobrir que essa experiência de minha amiga não tinha nada a ver com missas ou cultos, era algo maior do que as liturgias religiosas nos proporcionam. 
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Sobre Eduardo Cruz

Não sou bem um escritor, sou um pastor que escreve.

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