Experiencia missionária I - Seu Mário

Quando passava pelas ruas íngremes de Baturité na área mais pobre da cidade avistei aquele senhor de olhar sofrido recostado na janela de uma casinha pequena que tinha um aspecto de que a anos carecia de uma reforma. Me aproximei disse meu nome e me identifiquei como um enviado de Jesus para falar do amor dele para as pessoas daquela localidade. 

O homem idoso não sorriu, mas esboçou uma aprovação no olhar que me permitiu se achegar um pouco mais à janela. Perguntei qual era seu nome a quanto tempo morava ali, e se estava sozinho naquele momento.

Mario era o nome do senhor, já tinha tido muitas casas segundo ele, mas esta era a unica que lhe restou. Contou-me que havia encontrado a mulher na cama com outro homem a exatos 8 anos atrás, segundo ele, deu-lhe uma surra de vara e a mandou embora. Seu Mário falava com dificuldade devido a um AVC que segundo ele foi consequência da dor que a traição lhe causou e isto terminou por arruinar sua vida.

Cantador famoso na região, me mostrou seus CD´s gravados e guardados no canto da sala como troféus, da janela mesmo pude avistar os mesmos. Segundo ele, ainda cantava na rádio todo fim de semana - isto foi algo que me impressionou pois sua voz saia meio abafada e sua respiração era lenta - o filho único é quem o deslocava para a rádio ou para a feira numa moto que ele mesmo comprou com as economias da época em que se apresentava cantando nos melhores lugares da cidade.

O lado esquerdo do corpo afetado pela doença impedia sua locomoção rápida pela casa que apresentava um mau cheiro o qual foi justificado por ele "Às vezes quero fazer xixi e não dá tempo de chegar ao banheiro". As paredes estavam sujas como o chão, havia além disso a solidão, o filho, o único que vinha lhe ver, era um rapaz ocupado e que só aparecia no final de semana. Quis perguntar mais, sobre o banho, a comida, mas achei que já estava mexendo demais com suas feridas. 

Ao ouvir sobre todas essas dificuldades meu semblante entristeceu diante dele, creio que ele percebeu e me disse com uma valentia tipica dos cabras nordestinos por excelência "Mas eu não choro não doutô, aqui num tem lágrima não, eu sou ruim, nunca chorei e se chorei um dia num me lembro".

Eu disse a ele que eu estava ali porque Jesus se importava com ele e por isso tinha me enviado à sua casa. Jesus queria que ele soubesse o quanto se importava com sua dor, e que eu estava ali para trazer do consolo que só a certeza da presença de Deus pode nos dar. Pedi para orar por ele, ao que não se fez de rogado e aceitou prontamente. Convidei um dos jovens que caminhava conosco e que estava na casa vizinha falando com outra pessoa, pedi que este orasse com a gente. 

Não lembro das palavras da oração, mas quando abrimos os olhos havia finalmente na face de Seu Mário, lágrimas.
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Sobre João Eduardo Cruz

Não sou bem um escritor, sou um pastor que escreve.

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