A diferença que faz a cruz



“Não me arrependo do que me tornei”  

Gostaria de fazer uma análise dessa afirmação, vamos vê-la sendo feita por duas pessoas diferentes no final de suas vidas.

Digamos que a primeira delas cometeu muitos erros, mas que assumiu como princípio de vida passar por cima de todos eles e sempre seguir em frente.

A atitude de tal pessoa nos parece bastante razoável e até louvável, afinal, esta não desistiu da vida preferindo sempre prosseguir apesar das ofensas que cometeu, das pessoas que machucou, ou até mesmo das vidas que arruinou.

No entanto, para cumprir seu objetivo de se livrar das culpas, essa pessoa abriu mão de todo e qualquer sentimento em relação ao próximo, afinal, se desenvolvesse o mínimo de amor por quem quer que fosse, ao ferir esta tenderia rapidamente a mergulhar na culpa.

Portanto o individuo que assumiu essa postura diante das pessoas e da vida tornou-se completamente egocêntrico e viveu somente em função de si mesmo.

Como resultado colheu a solidão daqueles que optam pelo exclusivismo, que se acham isentos do bem e do mal, pois são seus próprios juízes e se absolvem arbitrariamente.

Mesmo tentando silenciar a culpa não pôde deixar de ouvir aqueles que o cercam e que por suas atitudes revelam o que ele construiu com o mal que deixou crescer dentro de si e que os afetou.

Sem reconhecer seus erros, ou não admitindo que existam, sofre as consequências que tal inconsequência pode trazer, os que lhe cercam mesmo em silencio comprovam a sua culpa.

Esta pessoa mediu sua conduta pelo nível mais baixo de humanidade que encontrou, achando-se assim por isso quase que perfeita.

Ela termina a vida assim afirmando “Não me arrependo do que me tornei”.

Agora vamos ver por outro lado. Alguém que termina a sua trajetória na terra com a mesma afirmação. Mas cuja história não é isenta de culpa.

Tal pessoa reconhecia que não era perfeita, no entanto achava que não era nem de longe a pior das pessoas. Por isso tentava lidar com a sua culpa pesando sempre a mesma em relação à sua postura diante das outras pessoas, e assim podia facilmente ser absolvido no tribunal da sua consciência.  “Não faço mal a ninguém” era o mote em que se sustentava.

Mas um dia esta pessoa se deparou com uma terrível descoberta, havia um legislador soberano ao qual um dia ela teria que prestar contas pessoalmente de sua vida. E o pior, a medida que este iria pesar a sua atuação era a partir da perfeição.

“Portanto santificai-vos, e sede santos, pois eu sou o SENHOR vosso Deus” (Lv 20.7);

“Porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo” (I Pe 1.16).

Para completar, tal pessoa não pôde negar a existência deste Deus, pois além de já desconfiar antes pela própria perfeição da natureza de que existia um arquiteto do universo (Sl 19), ainda este lhe foi revelado de tal forma que parecia impossível negar tal realidade, ela sentia uma presença incomoda deste Deus lhe fazendo arder o coração enquanto lhe apresentavam sua Palavra.

Tal pessoa vê seu nível de culpa crescer a tal ponto que o faz chegar ao desespero “Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7:24) 

Culpa e morte se aliam. E uma vida de culpa reconhecida deixa de ser uma vida pela qual valha a pena continuar vivendo.

Vivemos em uma sociedade onde as pessoas fazem de tudo para se isentarem da culpa, todos alegam ser inocentes ou vitimas de algo que as levou a ser o que são ou fazer o que fazem, no fim da história ninguém é mau.

O fato real é que, como seres humanos destituídos da glória de Deus que somos (Rm 3.23); deformados pelos nossos pecados, não importa em que nível, maus em essência. Diante de um Deus puro e santo não há outra sentença para nós a não ser, culpados. 

Diante disso só há duas opções: desespero ou fé.

Digamos que tal pessoa opte pela fé. A fé de que este Deus que se revelou a ela seja realmente quem diz ser, e sendo quem é a ama “Deus é amor” (I Jo 4.8).

E amando-a a quer para si e para tanto deseja que esta se torne pura para que não haja empecilho algum nessa união de amor.

Então crendo nisso esta pessoa olha para a cruz e vê ali este Deus tomando o seu lugar de culpa para que a ela seja dado o lugar de santidade.

E o Jesus crucificado chama pra si uma culpa que não é sua, a de todos os que se reconhecendo culpados diante de Deus desejam a Deus mais que tudo.

E o inocente aceita a nossa morte pra que tenhamos toda a vida que com Deus não será jamais interrompida.

Tal pessoa reconhece esse sacrifício  e inocentada gratuitamente vive em gratidão e na busca incessante de se assemelhar ao seu salvador que mostrou a melhor maneira de viver essa união de amor com Deus.

Não há inocentes, a bíblia diz que nenhum “Todos pecaram”(Rm 3.23)

Nunca seremos por nossas próprias forças o que deveríamos ser.

Temos que aceitar a nossa culpa e decidir o que fazer com ela.

Fingir que ela não existe dará mais trabalho do que admiti-las e deixa-las sob a cruz.

Digamos que esta pessoa decidiu pela cruz, viver a partir dela. Tal pessoa poderá dizer no fim de sua vida “Não me arrependo do que me tornei”.
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Sobre João Eduardo Cruz

Não sou bem um escritor, sou um pastor que escreve.

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